INFORMATIVO

EX-ALUNOS DO SEMINÁRIO DE SÃO ROQUE

No.  06    -    SÃO PAULO    -    SETEMBRO DE 1994

  EDIÇÃO INTERNET

 

Extraordinário Fenômeno

 

Boletim Informativo é um instrumento frio para manifestar todo ardor de uma amizade.

No nosso encontro (11.12.1993), ouvi da esposa de um nosso colega o quanto estava admirada e comovida em ver a amizade de pessoas que não encontrava há 10, 20 ou 30 anos, e ainda permanecem grandes amigos.

Só quem passou pelo Seminário tem capacidade para entender esse extraordinário fenômeno.

Brigas nos jogos; competição nos jogos olímpicos; alegria nos passeios de quinta-feira; entusiasmo nas sessões do Grêmio Literário; compenetração na Congregação Mariana; união e empenho nas atividades que envolviam as apresentações no palco; carinho dos padres-professores e desolação na proclamação das notas.

Tudo passou e nos marcou.

Essa marca nos une, convocando-nos a participar ativamente da preparação do próximo encontro, o segundo, em agosto de 1995.

Nosso “slogan”:  “Não podemos nos desmobilizar”.  Embora soe belicosidade e animosidade, esta frase neste momento deve servir apenas para direcionar nossa experiência de saudade concretizada naquele primeiro encontro.

Luiz Furlanetto (no 44)

(1949-1953)

“E LA NAVE VA ...”

No último dia 27 de agosto, foi dada a partida para os preparativos formais do 2º. Encontro dos Ex-alunos do Ibaté (1949-1973): Vinte e seis de Agosto de mil novecentos de noventa e cinco!   Em reunião especial, realizada na velha igreja da Consolação, as “Comissões de Atividades” foram constituídas. Todos a postos para o trabalho ingente, na esperança da adesão e colaboração imprescindível dos companheiros de  “Travessia”.  Veja nesta edição as diversas comissões em que você será bem vindo e poderá inscrever-se para colaborar nos preparativos.

 

NOTICIANDO ...   LEMBRANDO ...   SOLICITANDO ...

 

A CAMPANHA CONTINUA  -  Já recebemos algumas teses e livros de companheiros de Seminário para a futura  “biblioteca especializada”,  que está sendo organizada na  “Sede Própria”  do Ibaté.  Estamos aguardando novas obras, trabalhos técnicos, artigos publicados, colaboração em revistas, livros, bem como todo material de recordação do período de 1949/1973: fotos, livros escolares, livros de oração, composição literária, cânticos, relatórios, peças de teatro, boletins, etc.

ITU NOS CHAMA  -  No dia 19 de novembro, às 10h, os companheiros das várias “Comissões de Atividades” estarão reunidos na querida Itu para o encontro de trabalho e confraternização. Os colegas interessados em participar deverão entrar em contacto com a  “Coordenação Geral do Segundo Encontro”.

NOVEMBRO ESTÁ CHEGANDO  -  E com ele, o vídeo do nosso “Primeiro Encontro” que será oferecido aos companheiros.  A edição está caminhando bem, segundo nosso colega Asdrúbal Ângelo Baruffaldi.

CADASTRAR É PRECISO  -  O Justo está reclamando que não recebe, há muito tempo, novos endereços dos companheiros;  (1949/1973).   Vamos ajuda-lo?  A lista de ex-alunos que freqüentaram o Seminário entre os anos de 1964 e 1973 ainda não foi localizada!!!   Help!  Sugestões!  Pistas!

 

 

RECORDAÇÕES E FOFOCAS

 

·         Nos anos de 1957 a 1960, aproximadamente, havia no Seminário um grupo de mineiros vindos de Diamantina, Curvelo, etc.  Todos “gente boa”.  Entre eles o Paulo Acácio Martins, o José Moreira de Souza, o Orlando Ribeiro Cardoso, o Hermes Pimenta Werneck Machado, o Emil Von Pinho. Estiveram conosco no Encontro, no final do ano passado.  Chegaram com um baita ônibus (e dizem que mineiro só gosta de trem) viajando mais de 10 horas.  A vivência deles parece ser muito rica, primeiro pelo deslocamento inicial para estudar tão longe e, segundo, pelo caminho que cada um seguiu depois de sair do Seminário. Que tal contar para gente essa experiência?  Aguardamos.

·         Continuamos com nossos encontros mensais (toda primeira sexta-feira do mês, às 19 horas).  Têm aparecido sempre os mesmos. Oito a doze colegas.  No último, dia 05.08.94, teve gente que na hora do aperitivo tomou  “suco de tomate” e na hora da massa, tomou  “sopinha de capeletti”.  Será que a gente está ficando velho?

·         O Darcy Corazza (1949/52), o decano dos ex-seminaristas e, nas horas de folga, psicólogo de primeira linha, quis, outro dia, agarrar um ônibus a unha. Conclusão: dois meses de perna engessada.  Estava bom.  Aí resolveu dar uma capotada com sua “parati”.  Está de molho outra vez.  Será que Freud conseguiria explicar tudo isso?

·         Há um colega nosso, dos mais velhos, que para não atender a gente pelo telefone, fala para a mulher dizer que está dormindo.  Isso normalmente ocorre por volta das 20:30 às 21:00 horas.  O que é que há, Attílio.  Ta dormindo com as galinhas?

Justo – “Padeiro”

(1951/1957)

 

SEMINÁRIO MENOR METROPOLITANO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

 

Chegamos ao Seminário no dia 25 de fevereiro de 1949. Encontramos a seguinte direção da casa:

·         Reitor: Cônego Luiz Gonzaga de Almeida

·         Diretor Espiritual: Pe. Paschoal Amatto

·         Pe. Ministro: Pe. Constantino Amstalden

·         Pe. Prefeito dos Estudos: Pe. João Bueno Gonçalves

·         Pe. Prefeito das Cerimônias: Pe. José Paine

·         Pe. Secretário: Pe. José Maria Colaço

Para manter a ordem da moçada:

·         Prefeito: Valdemar Correa

·         Vice-Prefeito: Walmir da Silva Gomes

·         Sineiro: Laerte Vieira da Cunha

·         Sacristão: Tarcísio Francisco da Silva

·         Leitor de Capela: Darcy Corazza

ALFREDO BARBIERI SCRIPSIT AD MEMORIAM

1949/1954

 

CARTAS RECEBIDAS

 

ANTÔNIO EXPEDITO MARCONDES.

Roma, 24 de julho de 1994

Caríssimo e saudoso José Justo,

Estou em falta com você e com a turma toda do “Informativo”, pois já recebi alguns números e somente agora estou a agradecer o gentio envio. Recebi também uma querida foto da nossa “Bandinha” de São Roque; foi o Attílio quem me enviou, mas nem pude escrever-lhe agradecendo. Que saudades daqueles bons tempos!  Quantas recordações: alguns já se foram, outros ainda estão lutando no dia-a-dia, correspondendo à vocação a que foram chamados.

Por exemplo, eu, há quinze no Vaticano. Vim para dar assistência ao querido Cardeal D. Agnelo Rossi, com a experiência havida como seu secretário lá na Arquidiocese, e também para assumir a redação do L ‘Osservatore Romano, editado semanalmente em português. Sem sê-lo (como diria o saudoso Jânio Quadros), tornaram-me um “jornalista”, precisamente, eu que não gosto nem de escrever cartas ...  Mas, vou me  virando como posso, para difundir a palavra do Santo Padre e relatar alguns acontecimentos da Igreja Universal.

...

Parabéns pelo “Informativo”!   Assim, posso reviver os bons tempos do “Ibaté” e recordar muita gente que está vencendo na vida: ex-Ministro, advogados, médicos, professores, publicitários, empresários, bons chefes de família, entusiastas cristãos ...   Penso que a lição valeu, o tempo fez amadurecer muitos talentos, e a vida continua, agora revivida com os vários encontros de saudades e amizade.

Meu caro amigo, continuemos unidos pela saudade e pelas orações. Deus o abençoe!

Mons. Antônio Expedito Marcondes

 

 

ELÍDIO MANTOVANI – 1951/1956.

Osasco, 13 de agosto de 1994

Caro José Justo,

Paz e Bem !

Tenho recebido suas informações de interesse de antigos colegas em São Roque, sempre amigos.

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Deixo aqui meu abraço amigo, lembrando a alegria que foi o encontro de dezembro do ano passado. Tenho certeza de que todos que participaram guardam saudades e esperam com ansiedade o próximo. Agradeço o esforço de vocês todos que lutaram para que as lembranças de São Roque fossem revividas. Valeu o sacrifício da equipe toda.

Pe. Elídio Mantovani

 

 

CRÔNICAS

 

1993  -  Dezembro

 

JOAQUIM BENEDITO DE OLIVEIRA

(1950-1956)

 

O sol das onze horas está quase a pino e muito forte, ignorando nosso estúpido horário de verão. Os primeiros automóveis do comboio organizado, que saiu há uns dez minutos do centro da inesquecível São Roque, iniciam a subida da ladeira de terra em direção ao Seminário.

Conto os carros a minha frente. O meu é o quadragésimo terceiro da fila. Estico o pescoço para fora da janela e a imagem que vejo é a de uma cobra colorida que sobe devagar, muito devagar, como que querendo, com sua vagareza, sustar um pouco a extrema velocidade com que começam a jorrar na mente as recordações.

Minha primeira lembrança foi temporal: arredondou-se em mim um número que me assustou sobremaneira. Contei de novo os carros na minha frente e confirmei os quarenta e dois que me antecediam. Insisti para mim mesmo: sou, de fato, o quadragésimo terceiro. Então, o susto se tornou uma angústia. Cresceu no peito o aperto: há quarenta e três anos atrás, eu subira essa mesma ladeira pela primeira vez. E, de repente, eu não sabia mais se o que eu via era a passagem de 1950 ou de 1993.

Nenhum sinal visível de mudança. As mesmas árvores proporcionavam a mesma sombra. A mesma trilha sobre as folhas amassadas convidava à subida vagarosa que possibilitava olhar os mesmos raios de sol cavando sua passagem por entre galhos que também pareciam os mesmos. Até a umidade perceptível nas raízes aparentes e cobertas de limo talvez fosse a mesma.

Então, mais um susto: meus olhos eram os mesmos. Eu continuava a ver aquela natureza como vira da primeira vez. Também em 1950, dentro de um ônibus muito modesto, jardineira chorosa na subida, o que me impressionou profundamente foi o sol no meio das folhas, foi a quantidade de árvores formando o espaçoso bosque e foi o caminho de umidade e frescor percorrido com a vista, da estrada até as escadarias do Seminário.

Afinal, nada mudara mesmo? Por que eu continuava vendo tudo igual? Aquelas folhas não poderiam ser as mesmas, é evidente. E meus olhos? Quanta coisa eu já tinha observado depois que saíra dali? Mil vezes eu havia chorado de tanta impotência diante de dificuldades sem conta e tantas durezas vividas. E essas lágrimas... será que não haviam lavado o suficiente meus olhos, de modo que eles se transformassem, no mínimo, em símbolo de paciência e humildade para ver o mundo com mais ciência?  Entendi, então, que não mais queria ver nada de novo. Eu estava ali, subindo outra vez aquela ladeira de luz, porque eu queria apenas re-ver.  Quem sabe eu revendo, eu pudesse re-viver?

Quando entrei no dormitório vazio, por exemplo, reconstituiu-se, como relâmpago, a formação das camas, uma ao lado da outra e,  entre elas, um pequeno armário de madeira escura, medindo mais ou menos um metro de altura e com três divisões internas. A formação era suiçamente rígida: uma fileira em cada parede, cabeceira postada em baixo dos janelões; no centro, mais duas fileiras de camas cujas cabeceiras mantinham a mesma posição daquelas que estavam próximas das paredes.

Foi, então, que andei pelo meio do dormitório, observando cuidadosamente os espaços das fileiras do meio, até chegar à altura dos três quartos percorridos daquele espaço onde minha primeira cama estaria colocada. Parei ali, olhei para todos os lados: vi meus colegas se preparando para deitar, alguns ainda voltavam dos lavatórios onde tinham escovado os dentes; outros fechavam as janelas; alguns guardavam qualquer coisa nos armários quadrados que ocupavam a parede dos fundos; os mais rápidos já desarrumavam as cobertas.

Nesse momento, entra um padre (não sabia ainda quem era)  e apaga quase todas as luzes.  Todos já estão nas proximidades de suas camas e se ajoelham e fazem oração em conjunto.  Terminada esta, o padre apaga as luzes que ainda faltam, todos se trocam e se deitam.

No escuro quase total, vejo apenas pequena claridade vinda do corredor externo, onde estão os banheiros e o lavatório. Pressinto também que lá fora há uma lua cheia, o que me faz imediatamente deslocar dali para o Belém, bairro de onde saíra naquela manhã.  E a primeira imagem que me veio à mente foi a do rosto pequeno e redondo da namoradinha a quem havia dito antes de partir: “Vou pro Seminário”.  Só isso. Não soube dizer sequer um adeus.  Nem mesmo lhe dera o beijo que ficara devendo, quando, numa noite tão enluarada como supunha ser aquela, eu não tinha sido capaz de imitar meu vizinho que, tascando um beijo na namorada, insistia para que eu fizesse o mesmo. Faltou coragem. Eu não soube realizar naquela hora um sonho que nascia cada vez que eu via, no cinema, o mocinho beijando a mocinha.

Deitado na cama desconfortável, tentando compreender o que eu acabara de fazer, aos onze anos de idade, com a namorada na memória e com o coração batendo forte, eu apenas soube dizer para mim mesmo:  “Eu, num Seminário”?

Mais tarde, tomei consciência dessa admiração pelo que havia feito de minha vida.  Foi quando a estupefação virou dúvida. Mais tarde ainda, a dúvida se tornou angústia. Até que fui salvo por um gongo misterioso que soou rouco e louco. Se eu não tivesse ouvido, teria me ordenado, cometendo mais um engano e que, certamente, me levaria a outros enganos sem fim.

Tudo isso revi, em alguns segundos, bem no meio do dormitório amplo e sem ninguém. Tive a impressão de que nem mesmo eu estava ali. Senti uma leve dor de cabeça e tive necessidade de um café. Por isso, deixei aquele lugar. Quando descia as escadas, percebi um ruído alegre no hall onde um alvoroço revelava que alguém importante acabara de entrar.

Foi quando ouvi o Corazza gritar: - O Ministro chegou !

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