INFORMATIVO
EX-ALUNOS DO SEMINÁRIO DE SÃO ROQUE
NO. 12 - ANO 4 - SÃO PAULO - SETEMBRO-OUTUBRO DE 1996
EDIÇÃO INTERNET
É bom nos encontrarmos novamente. Nosso elo de união é o nosso informativo, aberto a todos, tribuna livre para relatos, curiosidades, saudades, desabafos, pareceres, enfim, tudo que nos faz mais irmãos. Dividamos através dele nossas alegrias e tristezas. Recordar é viver. Vivamos intensamente aqueles momentos, mas não nos esqueçamos do presente e façamos dele um ponto de partida.
O Attílio, com fineza, humor, emoção e carinho nos brinda com sua análise sobre o Deo gratias que marcou nossa vida e que hoje é nossa oração agradecendo ao Senhor o dom daqueles anos cujos frutos colhemos até hoje.
O Almeida traz à luz deliciosas páginas de um diário de autor desconhecido e uma ‘cronicazinha’ mui pitoresca e histórica sobre o jacaré.
O Jones lembra do som do sino que regia nossa vida e o Santiago localiza novos colegas.
O Márcio nos conta como aprendeu o valor das pequenas coisas com Mons. Kulay.
O nosso D. Constantino, escrevendo em 22 de agosto, relembra a Festa do nosso Seminário e nos relata o banquete do cardeal.
Às 1as. Sextas-feiras do mês, no Circolo Italiano, têm sempre alguém dos nossos aguardando companheiros para um bom “bate-papo”, o abraço amigo e o ágape fraterno.
Assim somos nós, assim é o nosso Boletim.
Alfredo Barbieri (49-53)
DEO GRATIAS, OH!, DEO GRATIAS!
Attílio Brunacci (1949-1955)
Eu era feliz e sabia!
Quando garoto, não via a hora de chegar o domingo para ir à igreja, onde eu era coroinha. Sempre era dia de festa para mim.
A “missa das 10” era a mais concorrida. Os coroinhas disputavam no par-ou-ímpar o privilégio de ajudar o celebrante. E lá estava eu, todo compenetrado, cheio de mim, de batina vermelha com o roquete (que vocábulo démodé) impecavelmente encardido, respondendo à maneira de um papagaio: “Et cum spiritu tuo”.
Nunca algum padre reclamava da minha horrorosa pronúncia latina “addeumquiletificatjuventutemmeam”. (andante, ma non tropo). Quando muito, limitava-se a apenas olhar-me de esguelha e tocar para frente o seu latinório também corrido.
“Ajudar a missa” era motivo de orgulho. Eu era o próprio aprendiz de intermediário entre a divindade e a comunidade, sentindo-me útil, a um só tempo, a Deus e ao povo. Sumamente gratificante.
Mas, apesar de todo o meu enlevo, eu sempre aguardava ansioso o momento de a missa terminar, de o celebrante proferir o Ite, missa est, para poder responder com sofreguidão o Deo gratias. Isso feito, subia rapidamente os degraus de mármore do altar para pegar o enorme missal. Sempre cuidando para não tropeçar nas fímbrias da minha batina vermelha, raramente de acordo com o meu tamanho, saía aliviado dna direção da sacristia, um pouco à frente do celebrante. Era a pressa de me livrar daquela tarefa mesmo sendo gratificante. Afinal, ninguém era de ferro, não obstante ter passado uns momentos mais perto do sagrado.
Enfim, era gostoso “ajudar a missa”, apesar de bastante cansativo, principalmente quando o sermão do padre era comprido e eu não entendia nada.
- Ite, missa est!
- Deo Gratias!
Que sensação de alívio.
De coroinha, fui promovido a seminarista por minha própria conta, vontade e risco. Seminarista do recém-criado Seminário do Ibaté, onde fui parar contra a vontade dos meus pais e, principalmente, das minhas saudosas catequistas.
Nesse ambiente de seminário, o Ite, missa est, então, já não era anunciado apenas nos “domingos e dias de festa e santos de guarda”. Repetia-se religiosamente na missa de todos os dias. Já o Deo gratias ia mais além: transformara-se em um grito de guerra proferido com entusiasmo em diversos momentos de um mesmo dia. De manhã até a noite.
- Ite, missa est!
- Deo, gratias!
- Benedicamus Domino!
- Deo gratias!
Nosso silêncio de cada instante só era interrompido com estrondo quando o padre ministro, ou um seu preposto, pronunciava a fórmula mágica: Benedicamus Domino! E o berro uníssono ”Deo gratias!
Nos recreios do café matinal, dos lanches, do almoço e do jantar. Diária e sistematicamente. Após os retiros espirituais – nossa! – nem se fala!
Na beira da piscina, após a precaução da Ave-Maria rezada com devoção, o Benedicamus Domino e seu respectivo complemento: Deo gratias. (Certa vez eu me engasguei no ... “gratias” por ter mergulhado antes do tempo. Três dias de suspensão de piscina).
As nossas refeições eram frugais e ótimas. Tornavam-se melhores ainda nos domingos, quintas e feriados quando havia o famoso “Deo gratias” e a gente podia então conversar à vontade. Fato que era absolutamente proibido nos dias letivos quando o processo de comunicação entre a turma era realizado através de olhares cúmplices e matreiros, gestos e sussurros clandestinos, num ambiente onde só não reinava o silêncio absoluto porque todos ouvíamos a leitura interessante de um livro, tendo como fundo musical uma espécie de melodia sem ritmo de algumas centenas de talheres roçando o fundo dos pratos de louça. Até que era legal, lembram-se ?
- Oba! Hoje tem Deo gratias.
Era assim que a gente sussurrava no refeitório quando via algum bispo visitante caminhando pelo corredor com os outros padres em direção ao refeitório que lhes era reservado. Esse séqüito medieval, visível pelas janelas do nosso refeitório, era sinal positivo de que iríamos ter o Deo gratias naquele almoço; ou seja, estávamos liberados para conversar à vontade, sem ser dia de festa ou feriado.
Dito e feito. O prelado adentrava (também démodé) o recinto sagrado (sagrado para nós, é evidente) e solenemente, como convinha a uma autoridade, pronunciava a fórmula em voz alta:
- Deo gratias!
- Deo gratias!, repetíamos em coro as duzentas vozes, imediatamente enchendo o refeitório com um vozerio ensurdecedor
Um Benedicamus Domino aqui, outro Deo gratias cá, outro Deo gratias acolá. E assim era, dia após dia para alguns, mês após mês para muitos, e ano ap’s ano para uns poucos que conseguiam ir até o fim do curso.
Devido às circunstâncias da nossa rotina diária no seminário, a expressão passou a ter uma conotação desvirtuada do seu significado original. Já não era mais pronunciada para agradecer a Deus, conforme a intencionalidade que trazia embutida. Se a tradução literal era “graças a Deus”, o que nós queríamos expressar mesmo era: até que enfim! Ufa! Já encheu!
Claro; após filas silenciosas, após os retiros, após o recolhimento dos estudos, após tudo aquilo que botava limites no nosso entusiasmo e instintos infanto-juvenis, só mesmo gritando aliviado: Deo gratias!
Daí que, na vida do seminário, passou a significar uma espécie de explosão e de desafogo que acontecia depois de momentos de tensão, de nervosismo, de ansiedade, etc., e não necessariamente a manifestação de um louvor a Deus.
O dicionário Aurélio registra o seguinte:
“Deo gratias (déo graciaç). [Lat., “graças a Deus,] Expr. Que se encontra em muitas preces e é empregada ironicamente por quem se vê livre de obrigação desagradável.” ( o grifo é nosso...)
Será que o mestre Aurélio estudou no Ibaté?
Verdade, entretanto, seja dita: havia um momento do nosso cotidiano em que o Deo gratias tinha um outro significado; nada a ver com os significados anteriores, isto é, nunca foi uma explosão de desafogo ou de alegria ou de liberdade. Esse momento acontecia todos os dias, sistematicamente todos os dias, tanto nas madrugadas do verão escaldante, às cinco horas e trinta minutos de cada manhã, com uma pontualidade helvética:
- Benedicamus Domino!
- Que merda! Perdão: Deo gratias!!!
Que Deus me perdoe.
E estava começando um novo dia na vidinha de todos nós!
· CONGRESSO INTERNACIONAL DO MOVIMENTO DOS PADRES CASADOS - Realizou-se em Brasília, em finais de julho, o Congresso que reuniu padres (com suas esposas e filhos) de 25 países de todos os continentes. O tema principal estudado foi o de “Novos Ministérios da Igreja em vista do Terceiro Milênio”.
· VISITA AO CARDEAL ARNS - No dia 27 de julho, d. Paulo quis conversar com um grupo de padres casados, que residem em S.Paulo. Com os religiosos, estiveram presentes alguns diocesanos: Attílio, Furlanetto, Lui e Corazza. D. Paulo falou do seu empenho em conseguir que os padres casados sejam melhor aproveitados nas diversas pastorais da Igreja. Quer continuar ligado com o grupo. A partri desse encontro, o Lui sugeriu que os padres casados, que exercem algum tipo de ministério atualmente (animadores de Comunidades Eclesiais de Base, Equipes de Liturgia, preparadores para o Batismo ou Crisma, Ministros da Comunhão, Ministros dos Enfermos, ...), passassem a se reunir regularmente para intercâmbio de experiências, atualização, animação, estudo. Parabéns, Lui, pela idéia. Que ela se concretize e seja mais uma contribuição na construção do Reino.
· VISITA AO RAFAEL - No dia 121 de agosto, Gilberto e Corazza foram visitar Rafael, filho do Asdrúbal, que está no Hospital Santa Cruz. A família ia fazer uma viagem pela Europa, quando se descobriu que o jovem estava seriamente abalado em sua saúde, o que exigiu um tratamento imediato com internação. No dia 25 de agosto e nos dias seguintes, o Corazza levou a S. comunhão ao Rafael e garantiu-lhe que todos os amigos de seu pai, solidária e fraternalmente rezariam pelo seu restabelecimento.
· MARCANDO PRESENÇA - Dia 06 de setembro, dia chuvoso e frio em S.Paulo. Atendendo a uma exigência de fraternidade, Gilberto e Corazza foram ao Hospital do Servidor Municipal, visitar e levar a Sagrada Eucaristia ao amigo Benedito Jorge Filho (Ditão). Nossas orações para que, se for a vontade do Pai e para o bem do Dito, que ele se restabeleça logo e volte para o seio de sua família.
· UM ENCONTRO ESPECIAL – Em 02.08.96, nosso encontro tradicional das primeiras sextas-feiras do mês foi bem significativo. Afinal post longum tempus antes do janTar, recebíamos os originais do nosso INFORMATIVO No. 11 pronto para a reprodução e remessa, graças ao trabalho eficiente do nosso Barbieri, coadjuvado pelo Márcio, Beta, Fierro, Almeida e Justo. A partir deste número, o Barbieri será o responsável pela edição do INFORMATIVO, sob a coordenação do Márcio e colaboração de todos nós. Compareceram ao encontro: Corazza, Beta, Attílio, Fierro, Márcio, Almeida, “Negão”, Barbieri acompanhado de sua esposa e filho.
Sob a batuta disciplinadora do Márcio, “democraticamente” foram distribuídas tarefas a todos os presentes ..., tendo em vista o próximo número do INFORMATIVO, prometido para o mês de outubro/96.
O jantar, embora “salgado” foi muito descontraído, alegre e integrador. Após as várias caipirinhas e generosos copos de Valpolicella, o grupo acompanhou nosso “condottieri-mor”, o Corazza, no Va Pensiero, de Verdi e outras cançonetas de nossa saudade do Ibaté. A alegria e o canto atraíram a atenção de Dom Mário Trebacchetti, diretor do Circolo Italiano e responsável pelo restaurante que, num gesto de simpatia e confraternização, se juntou ao grupo, fazendo parte do “Coral”. Como excelente anfitrião, ofereceu-nos uma generosa garrafa de vinho que ... temos certeza será cobrada no próximo encontro. Foi a primeira vez, após três anos de fiéis e constantes reuniões, que algum “capo” falou com o grupo e se interessou. Grazie, Signore D. Mário.
Na última 1a. sexta-feira, estiveram reunidos no Circolo Italiano os companheiros Delgado, Lui e esposa, Joaquim com seu filho e nora, Márcio, Cosso, Barbieri, Almeida, Tomaz, Acácio, Gilberto e Monteiro e a companhia agradável de Antônio Orzari, colega do Gilberto e Monteiro em Aparecida. Foi apresentado o esboço do próximo INFORMATIVO e recebidas novas colaborações. Foi uma noite fria, mas aquecida pelo calor da amizade e do bom vinho. É bom estarmos juntos.
· D. CONSTANTINO NO TIROL - Após as festividades do Jubileu Episcopal, D. Constantino empreende merecida viagem de recreio e de saudade à velha Europa, principalmente à austera Suíça de seus ancestrais. Desejamos estada feliz, principalmente no encantador Tirol, cuja música embalou por longos anos nossa vida do Ibaté querido.
Ave, ave! Aves esse aves?
Em uma das visitas que fizemos ao prédio do Seminário do Ibaté, encontramos em uma sala ao lado do teatro um caderno velho, já sem capas e com as folhas amareladas pelo tempo. Trata-se de um “Diário” de autor desconhecido. Nessa edição e nas próximas, procuraremos transcrever trechos do manuscrito encontrado, como segue:
“Meu diário.
Outro dia eu ouvi dois seminaristas adultos, da turma de São José, comentando que aqui no Ibaté a moda vai e volta. Eles falavam que durante esses sete anos que estão aqui assistiram, a cada ano, muitos novatos iniciarem coleção de selos, de insetos, de pedras, de folhas desidratadas, por exemplo, ou fazerem terço e aprender violão e, depois de alguns meses, abandonarem tudo, sendo que só alguns persistiram.
Eles falavam que quase todos, no primeiro ano, tentam aprender taquigrafia para escrever rápido, talvez influenciados por alguns dos mais velhos que são taquígrafos, ou mesmo pelo Pe. Jair, que usa lápis fininho e pequeno para fazer suas anotações taquigráficas em uma caderneta também minúscula.
E por falar em taquigrafia, eu fiquei sabendo que aquela bronca que o Monsenhor nos deu lá na Capela, na última segunda-feira, foi taquigrafada por alguém do último ano (bronca da qual aliás nada entendi). Disseram que depois da bronca, foi transcrita e o texto afixado no quadro de liturgia que fica próximo da escada que vai à Capela.
Segundo ela, escrever diário também é moda. Mas eu juro que comigo a coisa será diferente, porque doravante escreverei sempre, por toda a minha vida.
Segundo eu soube, essa moda de diário começou quando o Pe. Rui mandou alguns alunos médios lerem o “Diário de Dany” e o “Diário de Ana Maria”.
Eu vou encerrar por aqui, porque o Pe. Ricardo (ministro) já passou duas vezes no corredor e parou na porta do estudão. Tenho medo de ser surpreendido escrevendo diário em vez de estar estudando. Até amanhã ... (sic)”
banho de leite moça
Meu diário.
Domingo passado foi dia de visita. O Seminário estava lotado de familiares. Interessante que a maioria das visitas é para alunos novatos.
Dia de visita é dia de fartura. No final do dia, os alunos se despedem dos familiares e correm para o dormitório para guardar as latas de doces, bombons e quitutes que receberam. Alguns compartilham o que ganharam com os colegas mais próximos. Outros fazem trocas: um bombom vale um pedaço de goiabada, e por aí vai. Outros não compartilham e nem trocam, comem escondido. Alguns levam os presentes para o refeitório, de forma que, todos os que se sentam na mesma mesa têm sobremesa, manteiga, tody, por vários dias.
Todavia, interessante foi o que aconteceu com o colega que dorme na última cama, próxima dos armários, lá no fundo do dormitório.
Segundo me contaram, depois que todos já estavam dormindo, no escuro, ele abriu um armário e encontrou uma lata de “leite condensado moça”. Não se sabe como, mas ele conseguiu furar a lata e ficou mamando o leite debaixo das cobertas e acabou dormindo. De manhã, quando o sino tocou e o prefeito acendeu as luzes para as primeiras orações, ele estava todo molhado e “lambuzado”.
Os que estavam a sua volta nada compreendiam, enquanto ele saía correndo para o lavatório...(sic).
O JACARÉ SUMIU !!!
ANTÔNIO JOSÉ DE ALMEIDA (1963-66)
O Sr. Vicente é meu vizinho de chácara na cidade de São Roque.
Nos finais de semana, é lá que nos encontramos à beira da piscina ou à beira da lareira, dependendo da temperatura, para tomar um aperitivo, jogar conversa fora, ou seja, descansar.
E foi num final de tarde, à borda da piscina, que eu soube da “estória” do jacaré que morava no Seminário do Ibaté. Aquele que ficava no jardim, em frente das escadarias da entrada principal.
O Sr. Vicente é pedreiro e trabalhou, nos idos de 1959 a 1960, na construção da ala mais nova do Seminário, exatamente naquela onde se encontram os apartamento dos padres, o novo refeitório, a cozinha, a capela e a garagem.
Pois bem, conta o Sr. Vicente que, sob a supervisão do Pe. Expedito, por lá trabalharam os srs. Colombo, Isidoro, Alexandre, Messias, além de tantos outros e do próprio, que conta a estória. Já na construção da Gruta, trabalhava outro pedreiro, um artesão especial, de nome Ângelo Novi.
Interessante notar o destaque que o Sr. Vicente dá à irmã Rosa, dentro do processo de construção, uma vez que ela era a responsável pela orientação religiosa dos trabalhadores daquela obra e, segundo ele, fazia marcação cerrada, evitando que fosse perdida a missa, a confissão e comunhão aos domingos.
Mas, voltando à vaca fria, ou melhor, ao jacaré de pedra, foi Sr. Ângelo Novi, construtor da Gruta quem, com ferro, cimento e pedra deu vida ao gracioso espécime crocodiliano, nosso contemporâneo por vários anos, de quem todo mundo gostava, não se sabe o porquê.
Porém, por onde andará aquele réptil de pedra?
No último encontro, o de agosto de 1995, ele não foi visto no Seminário. Será que ele foi convidado para o evento? Você sabe, você viu?
Pelo que se sabe, da última vez que foi visto, ele rondava a chácara do “Luizão”.
VOLTA, JACARÉ!
NINGUÉM É DE FERRO
JONES NADIR GAMA (1969-70)
Uma das coisas que nós, seminaristas do Ibaté, jamais esqueceremos é o som do sino que nos ditava as obrigações.
Hora de acordar! Lá estava o seu badalo sendo acionado, e assim, para rezar, estudar, almoçar, o lazer, etc.
Raros eram os momentos em que este som deixava de soar na hora certa, com precisão britânica.
Porém, me recordo de um período em que esta rotina foi inteiramente quebrada.
Éramos acordados às 5:00 da manhã ? em pleno inverno. Em vez de nos prepararmos para a Missa, como era de hábito, todos o pátio, de calção, camiseta e tênis.
O dia, ainda escuro e frio. À frente de todos nós, ninguém mais do que o SABÉ, “travestido de, e “incorporado” por um professor de Educação Física.
Flexões aqui, pulos ali e corridas em volta do Seminário ... “ufa”!
Finalmente, após todos exaustos, a recompensa: um delicioso BANHO GELADO, porque ninguém é de ferro!
UMA LIÇÃO DO MONS. KULAY
MÁRCIO PEREIRA DA SILVA (PAÇOCA –1967/70)
Ano de 1968, segundo semestre; estava na 2a. série do ginásio. A matéria era Matemática – o ponto era geometria.
Mons. Kulay entrega a profa feita na aula anterior, devidamente corrigida e com a nota, com décimos e centésimos...
Dei uma olhada na correção e vi que tinha tido, em determinada questão, a nota descontada, a pesar de ter aplicado a fórmula certa, desenvolvida a resposta de maneira correta, e apenas errado na conta, o que evidentemente me fez chegar a um cálculo final da abertura do ângulo com pequena diferença a menor.
Depois da aula, no pátio, cheguei ao Monsenhor e disse:
- Pôxa, Monsenhor, só por causa de um errinho na conta, o senhor me descontou a nota?!
Ele, fumando o seu Mistura Fina na piteira, respondeu:
- Meu filho, aqui embaixo, a diferença realmente é pequena, mas se você projetar isso para o infinito, não vai ter como medir essa diferença.
Nunca mais esqueci: um pequeno erro aqui causa uma grande diferença lá adiante ...
VINTE E DOIS DE AGOSTO
CONSTANTINO AMSTALDEN, D.
Hoje seria a principal festa do nosso inesquecível Seminário do Ibaté, pois na ocasião se celebrava a festa litúrgica de nossa Padroeira, O Imaculado Coração de Maria.
Quantas recordações !
O palco, com suas peças teatrais! Quem não se lembra do “Carcereiro de Kunfels”, drama medieval em c inço atos, com 32 personagens ? Não é, Barbieri ?
As músicas, quer com a banda ou orquestra, quer com o conjunto! Que tal o “Va Pensiero” (gostei de ouvi-lo no encontro de 95, ou então o “Quim, quim, quero”, etc.
A Santa Missa Solene, a três vozes, dirigida pelos maestros Pe. Luiz e Pe. Expedito!
É o Banquete festivo, com fartas iguarias ! Numa destas festas, aconteceu um fato pitoresco. O Senhor Cardeal Motta, aliás grande amigo do Seminário, convidou o Sr. Governador do Estado, Dr. Lucas N. Garcez e, para servir à mesa, contratou um garçon profissional. E aconteceu ... As Irmãs haviam preparado um belo peru assado que o garçon levou numa bandeja bem enfeitada para apresentar aos convivas. Ao aproximar-se da mesa principal, o garçon perdeu o equilíbrio e lá se foi o peru pro chão, esbarrando na batina do Bispo Auxiliar, d. Siqueira. Que vexame! Tivemos que “engolir” a risada! E ainda, era o único peru! Fazer o quê ? Depois de limpar o “dito cujo” foi levado novamente e servido, agora, já destrinçado.
“Inté”.
Um grande abraço a todos amigos.
Dom Constantino.
LEMBRANDO
Na saúde e na doença - Alô, Rafael, filho do nosso dileto colega Asdrúbal. Você está no Hospital, carregando sua cruz, mas pode contar com nossas orações e nosso apoio. Torcemos por você. Queremos ser outros tantos Sirineus ajudando-o a carrega-la. Um abraço carinhoso e fraterno da família do Ibaté.
NOSSA CORRESPONDÊNCIA
· Do Attílio, um PS, revelador” “: Estou me lembrando agora que escrevi a data (22 de Agosto). Lembra-se da “buta” festa que tínhamos no Seminário nesse dia ? São as coisas boas do Ibaté”.
· O Eduardo Santiago nos escreve: “Gostaria através do Informativo expressar minha alegria por estar, novamente, tendo contato com antigos colegas do nosso querido Seminário do Ibaté. Tenho conseguido com certo êxito, por telefonemas, localizar o pessoal de 1970/1973.
Ficaríamos imensamente felizes se estes companheiros voltassem ao nosso convívio não só por meio do Informativo, mandando notícias, mas também participando nas reuniões, encontros e festas.Gostaria de deixar um grande abraço aos colegas já redescobertos:
· Arnaldo Caproni (Queixada),
· Antenor Marcelino (Cebolão),
· Wilhans George (Careca),
· Fernando Viviani (Piu-Piu) e
· Flávio Correia.
Benvindos!
O Almeida também localizou no mês de Agosto os companheiros:
· Luiz Antônio Gallana (1964-1966) e
· Marco Pólo T. D. Phenee Silva (1963-1965)
e o Márcio entrou em contato com
· José Cavalcanti Braga (1967-1970), apelido Santo.
Felizes os acolhemos!
COISAS QUE INCOMODAM
Há duas coisas só que podem incomodar: Ser você bem sucedido ou mal sucedido.
Se for bem sucedido, não há motivo algum para se incomodar.
Se for mal sucedido, de duas, uma: ou você conserva sua saúde ou fica doente.
Se você conservar sua saúde, não há motivo algum para se incomodar.
Se ficar doente, de duas, uma: ou você sara ou morre.
Se você sarar, não há motivo algum para se incomodar.
Se morrer, de duas, uma: ou vai para o céu ou vai para o inferno.
Se for para o céu, não há motivo algum para se incomodar.
Mas se for para o inferno, você terá que cumprimentar tantos desconhecidos que não terá tempo de se incomodar.
EDIFICAR NAZARÉ
CONSTANTINO AMSTALDEN, D.
A palavra hebraica “Nazaré”, segundo S. Jerônimo, significa “Flor”.
Como transformar nosso coração à semelhança de Nazaré, para ser também verdadeira “Flor”?
Ora, na flor, são considerados três elementos: a beleza, o perfume e a promessa de frutos.
Logo, o nosso coração deve possuir também estes três elementos: a beleza da Graça de Deus, o perfume de nossas virtudes e os frutos de nossas Boas Ações, sobretudo na vivência da fraternidade, amando, acolhendo e auxiliando todos quantos necessitam de nossas aptidões intelectuais, morais e religiosas. Esta é a nossa missão.
Assim o nosso coração será Nazaré, também no sentido etimológico.
Um abraço amigo.
D. Constantino.
ORIGEM DE UMA ALCUNHA
JOSÉ LUI, “o caipira” (1949-57)
Feliz alusão ao meu nome de guerra “CAIPIRA” FEITO PELO Fierro no Boletim anterior.
Muitos nomes de guerra existiram no Ibaté naquele período tais como: CARIDADE, BITA, ARAÇA e muitos outros.
Seria muito bom se pudéssemos saber as circunstâncias que deram origem a tais apelidos, pois é certo que cada um deles vem acompanhado de fatos interessantes e jocosos.
O meu foi assim: aguardava na fila, esperando minha vez, para o famoso corte de cabelo após férias, encostado na parede daquele corredor vizinho ao refeitório. Curtia distraidamente os fatos mais marcantes das férias apenas terminadas. Retornar ao colégio interno após um período de ausência não era tarefa muito fácil para um adolescente de 14 anos.
Assim que a cadeira vagou, lá fui eu para o assassino corte “FUZILEIRO” que arrasou num instante a bela cabeleira loira curtida com esmero nas férias de dezembro, com intuito de chamar a atenção das famosas ‘PRIMAS” temidas pela maioria dos diretores espirituais. Além do mais, a vaidade não ficava bem para um futuro levita do Senhor.
Eu era o último da fila e assim que a máquina começou a impiedosa operação, tocou o sino anunciando que a comunidade deveria se conduzir à capela para o costumeiro exame de consciência.
Ao som do segundo toque, o barbeiro sapecou o resto que faltava como pôde, pois não queria ser o responsável por alguém chegar atrasado numa atividade tão importante para a formação do caráter.
Apesar disso, não me foi possível entrar na fila e quando cheguei à porta da capela, já reinava aquele silêncio profundo, enquanto cada um examinava os compartimentos mais recônditos de suas consciências juvenis.
Parei na porta, abotoei meu paletó caqui apertado e curto nas mangas, ajustei as calças pula brejo em torno da barriga, puxei as meias de dentro da botina rigideira, aprumei o corpo e lá fui eu em direção ao meu lugar que era no banco da primeira fila.
Assim que transpus o limiar da capela, não deu outra, o ranger das botinas no assoalho seco demadeira acordou a todos para acompanhar o desfile do “CAIPIRA”.
CURIOSIDADE
O Justo nos manda uma página do Estadão com notícias de
“Há um século 1 de julho de 1896 – 4a. feira: Desordens:
“Barbieri Alfredo foi preso ontem, às 6 horas da tarde, na rua Visconde de Parnayba, por promover desordens numa venda daquella rua” (sic)...
NA CASA DO PAI
Falecidos:
· José Carlos da Silva (1963-1966) conhecido por “Vigão” – em Janeiro de 1990
· Egidomar José Mariano (1964-1965) – em 1988.
Réquiem et pax.
Para o próximo Informativo, mandem-nos crônicas, recordações, cartas, curiosidade,s coisas e fatos pitorescos de sua turma. Colabore e lembre-se que ele é o nosso ponto de união ...
COLABORAÇÕES
Mande notícias, histórias e estórias, amenidades, etc.
Envie para Alfredo Barbieri
Rua Exp. Rubens Leite, 71
Cep 12060-580 – Taubaté – SP
INFORMATIVO
São Paulo, outubro de 1996
Tiragem: trezentos exemplares.
Digitação: Barbieri.
Expediente: Justo.
Envelopamento e expedição: Gilberto (Beta)
Colaboraram nesta Edição: Attílio, Almeida, Jones, D. Constantino, Justo, Fierro, Corazaa, Márcio, Tomaz, Santiago, Lui.
Para a próxima, já temos colaboração do Almeida, Justo, Luiz Roberto da silva Oliveira.
Esperamos a sua também.