ECHUS   DO   IBATÉ

INFORMATIVO DOS EX-ALUNOS DO SEMINÁRIO DO IBATÉ - São Roque

NO 30  -  ANO  7    -   Abril  de 1999

EDIÇÃO INTERNET

 

Editorial

Na cronologia do ano, estamos no Outono. Na cronologia da vida, estamos no Outono. Tempo de frutos sazonados. Tempo de colheita.

Amigos, na Primavera da vida, estávamos no Seminário (sementeira) e,  lá plantados e cuidados por excelentes jardineiros, nossos superiores, bebemos a seiva de uma formação segura, fomos rorejados pelo orvalho da amizade e aquecidos pelo sol do Deus da nossa juventude.

Vencemos o Verão quente e desafiador realizando nossa vocação sacerdotal, familiar ou profissional. Hoje, em nosso Outono, colhemos os frutos da saudade, da amizade, da solidariedade, do dever cumprido, mas nossa oração continua dirigida ao Deus que alegra a nossa juventude... “ad Deum qui laetificat juventutem meam”, porque o coração e a mente não envelhecem e, prova disto, é nossa vivência, colegas de ontem e de sempre, renovados em cada encontro, em cada abraço, em cada aperto de mão.

Vamos para o nosso Cinqüentenário. A grande família vai se encontrar como se o tempo não tivesse passado e viveremos momentos de eternidade.

Attílio e Almeida conversam com o Côn. Noé. O Lourenço (Perereca) une Pirapora ao Ibaté. Mons. Renato recorda nossa piscina. Mais colegas são localizados. Nossa correspondência se avoluma. O Waldemar Waldir verseja.

Eis mais um Echus, informando, recordando, matando saudades, unindo.

Alfredo Barbieri (49-53)

 

 

Prêmio Jabuti de Tradução

 

O Attílio informa que o nosso colega CLÁUDIO GIORDANO (1951/57) recebe, no dia 23.04.1999, no Salão do Livro, o Prêmio Jabuti de Tradução, premiação concedida pela Câmara Brasileira do Livro, pela tradução do catalão do romance de cavalaria publicado em 1490: “Tirant lo Blanc”.  Esse romance é considerado um monumento da literatura catalã.  É a primeira tradução e edição em língua portuguesa.  O catalão, língua românica similar ao provençal, é o idioma tradicional da Catalunha, Andorra e Ilhas Baleares.

 

Colegas Localizados

 

O Antônio Simões informa que localizou os seguintes colegas:

Dino Zanardo Filho (1964)

Gabriel Francisco dos Santos  (59/62)

Jadilney Pinto de Figueiredo (55/56)

José Antônio Belucco (66/68)

José Cláudio Ormelege (1961)

José Rumão Umbelino (68/69)

José Tadeu Mol Carneiro (1966)

Luiz Antônio Rosatti (1959)

Luiz Mucciolo (1949)

Oshiro Kumayama (1957)

Paulo Rumão Umbelino (71-72)

Pedro Afonso Tadiello (1966)

Roberto Viviane Marcondes (70/73)

Colega Falecido:

Luiz Carlos Barbezan (1959)

 

Luiz Antônio Rosati foi localizado pelo Simões através de um tio, o Sr. Alírio Joaquim Rosati, ex-seminarista de Ribeirão Preto que, quando cursava Teologia no Ipiranga, era contemporâneo de vários colegas do Ibaté, dentre eles, Darcy Corazza e Ary Joly, a quem enviou um grande abraço. Simões ainda esclarece que foi informado por familiares do falecimento, ocorrido há mais de seis meses do colega Luiz Carlos Barbezan.

Dino Zanardo Filho foi localizado por Alfredo Barbieri e Jadilney Pinto de Figueiredo, pelo colega Wilson Mosca.

 

 

Piraporenses  X  Ibateenses

(Galante X Lourenço Perereca)

Lourenço Medeiros Fernandes (1949)

 

Dois times arrojados, dois elos que formam a grande família e uma engrenagem humana que perdura a poucos meses de seu cinqüentenário.

Eu me lembro e recordo muito bem que era um garoto com vocação a ser Padre. “Que bom!”.  Tempos passados que não voltam jamais. Comparo estes mesmos com muita saudade e alegria, pois são iguais às nascentes que brotam no meio das rochas, como águas cristalinas, percorrem vários caminhos, saciam a sede de tantos povos mais longínquos da sociedade e chegam até os lares das grandes cidades. Todavia as águas destas nascentes não voltam mais!  E sim abrem novos caminhos para a grande sociedade em que vivemos.

Escrevo este pequeno preâmbulo, querendo me reportar aos colegas mais antigos, “Piraponenes” mencionando alguns como o Francisco Adail Martins Moreira, Antônio Ivo Pezzotti, Antônio Godinho, Darcy Corazza, Côn. Laerte Vieira da Cunha, Antônio Jurandyr Amadi e outros tantos que permaneceram no meu dia-a-dia.  Os nomes e as palavras grifadas são para mim todos aqueles que moram em nossos corações, tendo a felicidade de serem também os fundadores do time que hoje com grande alegria e orgulho fizemos parte (os Ibateenses e os Piraporenses)  e mais ainda, estamos nos preparando e concentrando para comemorarmos os nossos 50 anos de Ex-alunos do Ibaté. A propósito, em nossos encontros, na primeira sexta-feira de cada mês nos reunimos no Circolo Italiano, com grande amizade, seguido de cronogramas para o grande evento comemorativo do nosso “Cinqüentenário” e logo após o encontro em forma de uma reunião, nos dirigimos ao Boi na Brasa e com grande orgulho nos deparamos e nos congraçamos com os Veteranos de Pirapora entre eles o “Galante”que sempre com uma forma eloqüente sobressai dirigindo ao grupo Ibateense, elogios a todos que ali estão e que passaram pelo Seminário Menor de Pirapora dos Cônegos Premonstratenses.  O jantar em clima de alegria total continua sempre nos proporcionando as deliciosas saladas seguidas da famosa “picanha” e no fim aquele cafezinho como saideira.  Colegas ibateenses não estou citando nomes em evidência do nosso grupo, porque os mesmos já são de conhecimento através do nosso Echus do Ibaté  ano 7 – n. 28.  Nessa descrição espontânea alusiva, faço-me “Porta-voz” dos demais colegas, desejando que continuemos firmes nesta jornada não só até os 50 anos de comemoração que será no dia 21.08.1999, mas sim por toda nossa vida familiar e fraterna, sabendo que o futuro a Deus pertence. Sejamos otimista hoje e sempre.

 

 

ECHUS VISITA :

 

ENTREVISTA COM CÔNEGO NOÉ RODRIGUES

ATTÍLIO BRUNACCI (49/51) e

ANTÔNIO JOSÉ DE ALMEIDA (63/66)

 

Em 24 de março de 1998, visitamos o Cônego Noé Rodrigues, professor de Matemática, História e Desenho no Seminário de Ibaté durante o ano de 1951.

Nascido aos 17.06.1917 em Botucatu-SP, transferiu-se com sua família para a capital, São Paulo, em 1935, onde concluiu seus estudos do Magistério Profissional no Colégio Caetano de Campos. Foi professor primário durante quatro anos e, com 22 anos, foi para o Seminário Central do Ipiranga. Ordenou-se sacerdote em 08.12.1950 na Igreja Santa Ifigênia, Catedral Provisória de São Paulo naquela época. Lecionou no Seminário de São Roque durante o ano de 1951, indo depois para o Seminário de Aparecida, onde lecionou por quatorze anos. Em seguida, lecionou por dois anos no Seminário Central do Ipiranga, onde também foi vice-reitor.

Na década de 60, foi nomeado Pároco da Igreja Nossa Senhora da Expectação do Ó, bairro da Freguesia do Ó, São Paulo, onde se encontra há mais de trinta anos. Em 1998, afastou-se de suas funções de pároco para se dedicar mais às Obras Sociais da Comunidade Nossa Senhora do Ó.

A seguir, trechos da entrevista concedida ao Echus do Ibaté:

Côn Noé – Fui para o Seminário Central do Ipiranga, mesmo não sabendo Latim, pois era muito pouco estudado no colégio. D. José Gaspar, Arcebispo da cidade de São Paulo, permitiu-me matricular no primeiro ano de Filosofia para estudar Latim, Grego e Português durante um ano. Dessa forma consegui habilitar-me para fazer o curso de Filosofia que, naquela época, era ministrada em latim. Então, cursei o primeiro ano de Filosofia. Tendo ficado doente, interrompi o curso e fui continuá-lo na cidade de Belo Horizonte.

Echus – Para o Sr., o que significa  “vocação para padre”,  o que é  “isso”?  O que o Sr. acha que se passava no íntimo do menino que queria ser padre, o que ele entendia?  O Sr. achava que todos que lá estudavam iam ser padres?  Os outros padres também tinham essa visão?

Côn. Noé – Não. Sabíamos que nem todos iam tornar-se padres. Nós, como padres, tratando dos vocacionados, vamos dizer assim, tratávamos como o cultivo de uma semente, uma plantinha que tem de ser cultivada. Então vai se cultivando no entendimento de eles quererem ser padres.  Nós estávamos cultivando, nesse sentido, mas também observando as pessoas para que, se num dado momento elas sentissem que não tinham a vocação, nós aconselhávamos:

“ Não, meu filho, aqui não é o seu lugar!

Você deve sair e seguir o seu caminho,

podendo servir a Deus de outra forma ”.

Então havia realmente essa preocupação de cultivar uma vocação, mas sem perder de vista a realidade. Nessa idade, menino, como é que você pode prever que, na maturidade, ele irá escolher a carreira de padre? Depois, ele tem que se definir também: não é só o chamado de Deus. Jesus disse: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e me segue!”,  mas ele deixou a decisão para o jovem... se ele queria mesmo.  Há o chamamento, mas também tem de haver a resposta ao chamamento.

Echus E qual  é a história de sua vocação?

Côn. Noé – Cresci numa família religiosa. Também participei da comunidade dos frades capuchinhos, lá da minha cidade de Botucatu; tinha uma base religiosa bastante boa.  Quando tinha meus dez anos, recebi o convite de um frade para ser padre, mas na época eu não queria.  Mais tarde, quando fui entrando na juventude, tinha que ir decidindo as coisas. Então me pus o problema da vocação: o que eu iria ser?  Orientado por uns padres, achei que minha vocação era o sacerdócio.

EchusO Sr. acha que a decisão pela vocação na idade já madura é melhor?  A  Igreja deveria trabalhar só nesse sentido, com vocações tardias?

Côn. Noé – É melhor, sim, sobretudo nos tempos de hoje. O ambiente social é muito agressivo à vivência da espiritualidade. Então, se há a internação, quando menino, ele perde o contato com este mundo aqui e acaba não tendo esse crescimento espiritual na realidade do mundo. Quando ele sai, grande, enfrenta essa realidade e tem uma crise, mesmo que não vá para o sacerdócio. Acho que trabalhar com vocações depois de uma certa idade é melhor. Até não é trabalhar com vocações depois de uma certa idade, mas o recolhimento para uma Casa de Formação deve se dar após uma certa idade – jovem, maduro, com seus vinte anos – conhecendo melhor a realidade social de hoje. Conhecer quer dizer conhecer na prática, pois o conhecimento teórico, os padres procuravam dar aos meninos no seminário menor, mas não adianta nada; precisa conhecer na vida, viver a vida, então, ele amadurece. E a decisão dele é mais acertada. Eu me lembro, em nosso tempo, daqueles padres que foram para o Seminário depois de jovem: tiveram menos dificuldades de adaptação na vida prática.  Mas, durante o tempo de criança, fora do seminário, deve-se cuidar da formação dessas vocações, ir acompanhando esses adolescentes, esses jovens.

Echus Pe. Noé, hoje a gente vê essas pessoas que vão para o seminário depois dessa experiência de vida e que são inseguros depois de padres.  Cada vez que a gente se encontra com eles em um casamento ou outra celebração, percebe-se o quanto são fúteis, diferentes daqueles que foram crianças para o seminário, tiveram dificuldades, mas parece que têm mais consistência na formação?

Côn. Noé – Mas, talvez, não por que tenha ido ainda criança para o seminário. Como foi criança, realmente teve a oportunidade de ter uma formação mais profunda. Mas veja o que eu falei agora: não é cuidar da vocação depois que é adulto, mas cuidar durante o tempo de criança, fora do seminário, com outra metodologia, com outra realidade; ir acompanhando essas crianças, esses jovens.

Echus – O Sr. não acha que o seminário, nos moldes antigos, embora com todas as suas limitações e dificuldades, tem pontos positivos que ajudaram a geração dos padres de hoje?  Quem não passou pelo seminário menor não tem amizade; os padres da nova geração não têm amizade. Quem passou sete anos juntos no seminário menor vive mais com alguém do seminário do que com os próprios irmãos. Quem não fez seminário fica isolado e não conhece outros padres.

Côn. Noé – Por exemplo: eu presenciei a mudança dos seminários diocesanos para o Seminário Central e depois, a divisão novamente, a volta para os seminários diocesanos.  Nessa época do Seminário Central, notei uma coisa muito positiva: a amizade entre os padres. Então eu saio daqui e vou para Ribeirão Preto e encontro um amigo lá; vou para Presidente Prudente e tenho outro amigo lá. Porém, os que ficaram separados, nos seminários diocesanos não têm amigos em outros lugares. Agora, como a Diocese de São Paulo é muito grande, dividida em regiões, eu não conheço o padre do Ipiranga, o de Santana, Osasco. E a gente se sente isolado demais. Aí você tem razão.

Aqui no meu “pariocato”,  pela experiência que tenho tido, vejo que a gente precisa cuidar de todas as idades, de todas as faixas etárias, manter o cultivo, mas não consegui o ideal que tenho em minha cabeça: ter equipes de dirigentes bem capazes, que dirigissem cada grupo etário. Por exemplo, porque nos dias de hoje, sobretudo, o movimento de adolescentes na igreja pode tirar muitos deles das drogas. Ele sai de casa, quer se ver livre da família, grita independência mesmo. Então ele sai e, encontrando um grupo bom, preserva-se; não encontrando, ele vai para qualquer caminho.  Mas não consegui o que pretendia: uma equipe boa, de gente que estudasse, inclusive Psicologia, essas coisas todas, e cuidasse dos adolescentes, com a dinâmica deles; fazer excursão, teatro, espiritualidade, música, esporte.  Porque, se não ser trabalhar com a psicologia deles, nada funciona: impõe-se a faze palestra, e só. Naquela dinâmica deles, você vai introduzindo a coisa boa.  A minha idéia é essa, mas sinto que a Igreja está muito parada nesse ponto; a pastoral da juventude está parada. De adolescente, nem se fala, entendeu? E depois, das famílias, também, dos movimentos de casais...

Echus – O Sr. não acha que o problema é sistêmico, e que  também deve ser feito um trabalho com os pais?

Côn. Noé – Mas você o faz naturalmente, quando começa a motivar os adolescentes. Tive aqui essa experiência. Quando você começa juntar os adolescentes para alguma coisa, os pais começam a despertar.  Aí você está motivando; você convoca e eles vêm. Não vêm todos; que venham 10% e você está com um grupo melhor. E aquilo vem, crescendo...   Quando cheguei aqui, eles falavam muito de conflitos de gerações (pai não entende o filho e filho não entende o pai), e, pela experiência que tive, consegui com que famílias se entrosassem, pois a criança estava aqui, no catecismo; o adolescente estava aqui, no nosso grupo; os casais fizeram encontro de casais e estão aqui, conosco. Então, numa mesma família, eles começam a se entender. Agora, por que fizeram essa caminhada.

Echus – Acho que esse é o verdadeiro sentido de paróquia.

Côn. Noé. – É verdade! Formar comunidade.

Echus – Comunidade baseada na célula natural, que é a família.

Côn. Noé – É lógico! Você não pode deixar a família. Eu acho que você consegue assim. Mas o que eu vejo é o seguinte: você pega documentos da Igreja: são muito bons, a análise da realidade é perfeita, mas os caminhos não os encontramos ainda.

Echus – Quantos padres trabalham aqui? Só o Sr.?

Côn. Noé – Não. Aqui, agora são dois padres.

Echus – O Sr. e outro?

Côn. Noé – Sim. A paróquia é pequena de território; tem 40.000 habitantes. Tem 33 prédios.

Echus – A sua atuação chega a 5% desses 40.000 habitantes?

Côn. Noé – Não chega. Quem freqüenta a missa chega a 5%. Esses que freqüentam a missa não são participantes. Os participantes não chegam a 1%.

Echus – É o suficiente para o Sr. se desgastar?  Eles são leitos?

Côn. Noé – É claro.  A gente tem debatido muito esses problemas, mas eu acho que não ...

Echus – O Sr. coloca que não só a falta de pessoas especializadas para trabalhar junto à comunidade, mas também não existe metodologia, instrumental para colocar isso em prática; a Igreja não delineou caminhos mais objetivos para isso?

Côn. Noé – Em parte, sim. Em parte, a Igreja tem procurado encontrar esses instrumentos de trabalho. Não sei se sem um plano concreto de trabalho, pois há muitos projetos, vamos dizer assim, lançados para o trabalho de evangelização, mas parece que não tem unidade. Não sei...

Echus – Pe. Noé, a experiência que a gente tem de trabalhar em empresa, quando vai fazer um projeto, conta o que a gente quer, a metodologia e os recursos. Com relação a projetos, a Igreja tem a pastoral, mas, e os recursos? Onde eu vou buscar um psicólogo para fazer um trabalho? Onde vou buscar alguém para a equipe de casais? Nosso, o Sr. tem razão.

Côn. Noé – Nós temos discutido também o seguinte: essas seitas, hoje por aí, parecem que têm líderes a dois por quatro. Como que elas conseguem?  São verdadeiros líderes; eles lotam a igreja.

Echus – Isso é fácil: o senhor gostaria de ter a profundidade que eles têm?

Côn. Noé – Mas, ao mesmo tempo em que eles não têm profundidade alguma, eu, olhando minha turma daqui, formada em meu tempo, tem muita gente com capacidade, mas não são atuantes como um líder; não são capazes de sair daqui e formar um grupo de rua lá, de pregar o evangelho, de criar uma escola ali, de criar qualquer coisa. Mas alguém disse: “Padre, lá eles ganham!”

Echus – Isso é um motivo. Eu acho que, por dinheiro, no bom sentido, a gente faz tudo.

Côn. Noé – É que faz falta; você não pode deixar a sua família e se dedicar. Se eu quisesse arranjar 20 líderes aqui na minha comunidade, eu conseguiria. Mas eles têm que largar a família e ganhar para sua subsistência; depois eles vão se dedicar e se preparar.

Echus – Não é cultura da Igreja esse tipo de trabalho. Nós, os padres, acostumamos os paroquianos a virem à Igreja para buscar tudo de mão beijada, em troca de nada, na comunhão, no batismo, no casamento; aqui é uma espécie de supermercado de Deus.

Côn. Noé – Mas nós estamos mudando isso aí. Por enquanto, só na teoria. Foi feita muito pouca coisa. Olha o Toninho aqui: ele não poderia fazer um trabalho de evangelização? É só um exemplo. Outra coisa: os padres que se casaram – eu tenho us padres casados aqui, que vêm se queixar comigo – quantos que gostariam de trabalhar e são bloqueados pela própria lei da Igreja?!?!?

Echus – Eu, Attílio, acho que não é a lei da Igreja não, porque eu pouco estou ligando para a lei da Igreja. Há algum tempo atrás, passamos um fim de semana na fazenda do Serginho Fioravante, na cidade de Buri. Lá estavam uns quarenta – padres – entre os quais, eu, o Corazza e o Furlanetto. À tarde, no sábado, tivemos uma reunião com a turma e rezamos uma missa na capelinha. O Sr. precisa ver que coisa bonita!  Eu não vou atrás e lei; vou atrás das minhas convicções; a lei é um limite; não vou querer abusar; respeito. Acho que o maior bloqueio desses padres casados são os próprios colegas que se sentem meio inseguros. Eu já me ofereci para o Gaspar. É difícil.

Côn. Noé – Uma vez, Don Angélico, que é nosso bispo regional aqui, conversou sobre isso, mas achou que hoje não é solução traze-los para trabalhar na Igreja, porque eles estão longe de nossa caminhada.

Echus – Mas podia colaborar. Aí é que está ...

Côn. Noé – Mas é claro!

Echus – Estão longe, na medida em que a Igreja está atrás. Eu acho que é nesse sentido, não é?

Côn. Noé – Não, no sentido em que a Igreja tem caminhado nessas reflexões de pastoral, evangelizações, vendo problemas modernos, atuais.  Ele acha que os padres casados ficaram lá com aquela estrutura e idéia da época em que eles saíram, e a idéia dele foi essa.

Echus – Ele generalizou!  Tem gente da pesada fazendo um bom trabalho. Nesse nosso movimento, a gente tem a participação de muitos. O Attílio é um, mas há várias pessoas, que foram padres, com os quais a gente tem contato, pelo menos eventual, com trabalhos de pastoral. O Corazza é outro exemplo. Ele tem uma comunidade; o Celso Queiroz dá risada. Contudo, percebe-se que é criada uma dificuldade da aproximação desses padres casados nas paróquias. Há sempre receios e bloqueios.

 

Na casa do Pai

Em 15 de abril de 1999, faleceu nosso prezado colega de 1963-66:

Neolir Antônio Montini

Aos familiares nossos pêsames e os sentimentos de eternas saudades.

 

 

Poesia

Extraída do livro “Habitantes do Silêncio” de nosso colega Waldemar Waldir de Faria (1955-58)

 

Semântica

em algum lugar,

encontrei sílabas

tônicas desfeitas

em átonas.

 

Vou colocá-las na patena

de meus lábios.

Vou aquecê-las e, depois,

emenda-las em versos

 

Descoberta

se você ainda insistir

conseguirá ver o oceano

que inventei,

em suas mãos:

há luz de barcos

e um soneto de espumas

 

Nossa Correspondência

 

DEORESTE LUIZ DE SOUZA – (1949/51)

Tem sido gentileza sua o envio regular de um exemplar do Echus. Obrigado.

Hoje faz parte de nosso “modus vivendi” a leitura e o saboreio gostoso entre mim, minha esposa, Marluci, e os filhos, Hamilton, Maria Crystina, Maria Ruth e Thiago. É bom recordar um período de nossa vida, quando nosso caráter e padrões de comportamento estavam em formação.  

É extremamente agradável saber que companheiros como o Darcy Corazza, Luiz Furlanetto, Pedro Sansone, do Largo do Belém, o fanático Palmeirense morador da Rua Sorocabanois, o Francisco Fierro, o Aníbal Poty, que graças a Deus tínhamos uma informação errada de seu falecimento, todos esbanjando a bondade de seus sexagenários corações, muito própria de um ex-ibateano.

Foi gratificante caminhar junto com o Paulo Oliveira, quando ele “recorda” o Barbieri e o famoso “Painel da Branca de Neve”.  

É muito bom saber que o Paulo de Oliveira está vivo e com saúde, ele que foi o apadrinhado de Dona Marocas, de saudosa lembrança, no Seminarinho do Monsenhor João Pavésio. Ele que, com o cotovelo parcialmente estourado, fruto de uma desleal entrada por trás, continha com o braço erguido a perdoar. Perdoe-me! Até hoje tenho na lembrança este momento fatídico.

Peço ao amigo Justo o favor de enviar uma relação com os telefones dos que passaram pelo Seminário Menor de Ibaté.

Prezados Colegas, são memórias, recordações, experiências que numa análise bem sucinta nos mostra quão importante foi nossa passagem pelo Seminário Menor, período em que basicamente o nosso caráter e padrões de vida foram forjados, permitindo-nos saborear vitórias e sucessos na formação de um lar cristão e saudável. Graças a Deus foi-me dada a oportunidade de passar pelo IBATÉ.

 

GERALDO DA SILVA MELO - GOIANO (1957/58)

No ano passado fui contatado pelo Oliveira (ex-padre Oliveira) em Goiânia, onde moramos, e foi com imensa satisfação que passei a receber o Echus.

Hoje, ao receber o de n. 28, emocionei-me bastante ao distinguir na Photo Antiqua, entre tantos colegas, o meu perfil, aos 18 anos, no arco central, ao lado do colega Bicho-Bicho, apelido do bom lituano. 

Pertenci à turma dos Goianos, que emigrou do Seminário Santa Cruz de Silvânia-Go, para o Metropolitano do Ibaté.  Eu, Jadilney, Licínio de Paiva, em 1957, ali permanecendo até partirmos para Aparecida do Norte, onde iniciamos o curso de Filosofia. Bons tempos! 

O Jadilney mora em Brasília, onde se aposentou como funcionário do Senado.

O Licínio formou-se em Direito, advogou por muitos anos, vindo a falecer ano passado, na cidade de Corumbá-GO.

Hoje encontro-me na Assessoria do Tribunal da Justiça de Goiás, onde aposentei-me como Juiz de Direito. 

Nunca me esqueci de sua figura, amigo Justo, e hoje, aqui também relembro-me do colega Clóvis que, certa vez, juntamente com o também colega Napoleão, formamos um trio sertanejo e apresentamos no palco uma “embolada”, que denominamos “Rancheira”.  Foi uma beleza ver aqueles três ao violão, iniciando a carreira de cantores, que infelizmente não chegou a decolar. 

Queria continuar divagando pelos tempos idos e saudosos, mas terei oportunidade de fazê-lo no dia 21.08.1999, pois pretendo comparecer à confraternização que nesse dia se dará. Abraços a você e a todos os ex-colegas, com imensa saudade!

Echus esclarece: O colega Jadilney Pinto de Figueiredo já foi localizado.

 

LETTERIO SANTORO  -  (1955-59) –

Prezados companheiros, Há exatos quarenta anos, em 1959, minha turma sofria uma grande frustração. Vestir a batina era, naquele tempo, o grande sonho que todos acalentávamos como seminaristas. Figurava-se-nos o primeiro passo rumo ao Sacerdócio, mal terminávamos o colegial. Teríamos também nós gostado de provar as emoções que outras turmas, antes da nossa, provaram, ao ouvir o coro cantando o “Quam dilecta habitacula tua Domine virtutum”,  enquanto se impunha aos finalistas a sagrada veste.  E eis que, de repente, perdíamos essa oportunidade, e ficávamos frustrados.

Passados tantos anos, permito-me deixar à apreciação dos companheiros um soneto singelo, composto quase certamente na quinta série, ainda embalado pelo sonho de vestir, no ano seguinte, a sagrada túnica.

 

                 Minha Batina

 

Amo-te tanto, humílima batina,

negro estandarte do Ideal mais belo!

O teu feitio nobre, mas singelo,

Desprezo deste mundo só me ensina ...

 

És uma nesga santa da divina

veste do Cristo, pura e imaculada.

És toda de seu sangue recamada,

és luz, e céu, és mesmo peregrina.

 

O mundo te rejeita zombeteiro;

odeia-te, formoso relicário;

não sabe teu excelso paradeiro.

 

Mas, quando eu te puser, da vez primeira

até o meu supremo desenlace,

serás a minha eterna companheira.

 

Não é lá aquele primor, como os sonetos dos poetas maiores do colégio, mas serve para relembrar o sonho de nossa adolescência, frustrado pelas mudanças de então.   Abraços fraternos.

 

MÁRIO GAMBASSI LUIZ ANGELINI – (1958/61) –

Amigos, quando eu vejo fotos, lembro de um colega que morava em Jundiaí e que tinha um laboratório para revelar filmes. Era o Ismael Mantovani. Vocês se lembran dele?  Acho que ele tem muitas fotos históricas. Pessoal, continuo aguardando endereços aqui de Belo Horizonte. Quero fazer contato para estudar a possibilidade de levar uma caravana para o cinqüentenário.  maga@sincormg.com.br 

Echus informa:  os endereços foram enviados por email para o Mário.

 

OTTO DANA, Pe. – (1954/58)

Companheiros do Ibaté, Ad Jesum per Mariam!  Até parece que ainda sei latim!  Desenterrei esta saudação do meio de uns alfarrábios, como dizia o bom Pe. Rui (ou era outro?!?).

Tenho recebido o Echus de uns tempos para cá. Idéia bem achada, já que obriga a revirar o fundo baú para encontrar fotos, rascunhos, diários e reencontrar aqueles rostos que compuseram nossa biografia na adolescência e na juventude. Hoje compõem a saudade e o desejo de reconstituir o passado. Se já não pensaram nisso, sugiro que se monte um grande painel com fotos e outros detalhes que recuperem um pouco da memória coletiva no dia do encontro do Jubileu.

Devo ter passado pelo Ibaté entre 53 e 59. Me distraía compondo alguns “mite Domine” e regendo a Schola Cantorum e a banda. Poderíamos ter gravado um CD do Va Pensiero.

Sou dos poucos sobreviventes da turma que ainda teima em continuar como padre. Castigo o povo da Catedral de Piracicaba e brinco de dar aulas de Filosofia, enganando as alunas de Pedagogia da Unesp. Se o governo não caçar de vez, estou às portas da aposentadoria.

Estou enviando minha contribuição mensal, agora declarada, já que vocês não aceitam anônima. Estaremos lá, no dia 21 de agosto, se o reumatismo deixar. Abraços a todos.


1949 – OS PRIMEIROS PADRES DO SEMINÁRIO DE SÃO ROQUE

Em pé:  Padres Paschoal Amato, Constantino Amstalden, José Maria Fernandes Colaço e José Mayer Paine.

Sentados: Mons. Luiz Gonzaga de Almeida, D. Antônio Maria Alves de Siqueira e Côn. João Bueno Gonçalves.

Do álbum particular do colega Waldemar Ruis de Miranda


WALDEMAR RUIS MIRANDA -  (1949) 

Tenho recebido regularmente e lido com interesse o Echus do Ibaté. Procuro neste informativo algumas lembranças do passado tão remoto. Eu devo ter entrado no Seminário de Pirapora com a idade de 10 anos, isto há 52 anos atrás.  No ano seguinte a minha entrada, o Seminário foi desativado e mudou-se para São Roque. Eu sou como goleiro: por onde eu passo, não nasce grama. No ano seguinte, fui dispensado do Seminário de São Roque. De uma forma ou de outra, sou um vocacionado, pois há mais de 20 anos, sou um “vicentino”.  Estou encaminhando junto a esta uma foto dos primeiros padres do Seminário Menor de São Roque, que eu gostaria  que, se possível, fosse publicada.

 

PISCINA

RENATO ARTAMENDI, MONS. (1958/59)

 

O Seminário do Ibaté era famoso por ter aparelho de televisão, em que assistíamos aos domingos de manhã aos CONCERTOS MATINAIS MERCEDES BENZ” e por ter piscina. Grosseira, mas tinha. E para nós constituía o máximo da mordomia.

Porém nem tudo foi alegria nesse recanto aquático. Em 1952, morreu nela, de congestão, o aluno Jésus Gottardello. Lembro-me de que no dia de Finados de 1959, os “prefeitos” das divisões (São José, São Luiz e São Domingos) foram de manhã ao cemitério de São Roque visitar seu túmulo. Depositamos algumas flores e rezamos o “De Profundis” - Salmo 129.  Depois passamos na igreja matriz, onde o párodo, Pe. Luciano Túlio Grilli, nos deu sorvete.  Com aquele calor, foi uma dádiva.

Esta morte explica o cuidado que o Pe. Constantino tinha conosco. Ninguém podia entrar na água antes de completar duas horas após a última refeição. Mesmo se tivéssemos comido uma bolacha. Ele era rígido.

Neste mesmo ano de 59, dia 26 de maio, estávamos no recreio das 10 horas, quando o José Benedito Gomes Guimarães, jogando espiribol, sentiu-se mal e caiu. Pensávamos que tivesse desmaiado, mas o Pe. Rui chegou e o viu morto. Na hora, deu-lhe a absolvição, falando bem alto no ouvido dele. Tinha uns quinze anos.

Seu corpo foi velado num quarto do andar térreo até à 1:30h da madrugada. Aí chegou seu pai e o levou para São Paulo, onde morava. Ia ser sepultado no Araçá. Foi a noite mais triste do Seminário. Silêncio total. Uns velavam o corpo, outros rezavam, outros vagueavam pelos corredores. Ninguém conseguiu dormir direito.

Na noite anterior, houve bênção do Santíssimo e o José Benedito serviu como tochífero. Por um motivo qualquer a vela de sua tocha apagou. A única. Nos dias seguintes ao falecimento, o comentário era um só: foi aviso.  A partir daí, todo mundo passou a cuidar muito bem de sua tocha. Vai saber.

 



                                                

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