CARTA CIRCULAR

do Exmo. Sr.

D. CARLOS CARMELO DE VASCONCELLOS MOTTA,

 

Cardeal Arcebispo Metropolitano de São Paulo, anunciando a abertura do Seminário Menor do Imaculado Coração de Maria da Arquidiocese de São Paulo

 

 

Ao Revmo. Clero e fiéis de nossa Arquidiocese, saudação e bênção no Senhor.

 

A 25 de março do próximo ano de 1949, com a graça de Deus e as bênçãos de Nossa Senhora, inauguraremos, na vizinha cidade de São Roque, o Seminário Menor Metropolitano do Imaculado Coração de Maria.

Há mais de 40 anos, o Seminário Menor da Arquidiocese, em Pirapora do Bom Jesus, vinha sendo regido pelos Revmos. Cônegos Premonstratenses, a cujo zelo e solicitude devemos a formação da grande maioria de nosso operoso clero. Circunstâncias várias, que lamentamos e aceitamos, já não permitem que esses dedicados educadores dos nossos seminaristas continuem a prestar à igreja paulopolitana o concurso eficiente de seus trabalhos. Queremos prestar um público testemunho de nossa gratidão e apreço à benemérita Ordem dos Cônegos de São Norberto que deu à igreja de São Paulo e do Brasil tantos bons sacerdotes e bispos apostólicos. Deus Nosso Senhor os recompense, fecundando sempre mais os labores de sua piedade e multiplicando em nossa pátria o número de seus filhos.

Sem embargo, pois que o Seminário Menor devia continuar, pareceu-nos bem adaptar para esse desideratum o espaçoso prédio que o saudoso Arcebispo D. José Gaspar de Afonseca e Silva construíra para Casa de Férias dos seminaristas de São Paulo.

E para substituir a direção dos Revmos. Cônegos Premonstratenses, resolvemos confiar o Seminário Menor ao dedicado zelo de um grupo de padres de nossa Arquidiocese. À frente deles, colocamos a pessoa, credenciada por tantos títulos, do Revmo. Sr. Cônego Luiz Gonzaga de Almeida, que em elevada compreensão da importância deste problema, deixa o posto de Vigário Geral da Ação Católica e a mimosa paróquia de Santa Cecília, para aceitar a Reitoria do nosso Seminário Menor Metropolitano, ficando todos sob a orientação do Exmo. Sr. Bispo Titular de Aricanda.

Do Reitor, bem como dos outros diretores e professores do Seminário, - sacerdotes que escolhemos com escrupuloso cuidado para esta delicada tarefa, confiamos os bons frutos e o abençoado êxito deste educandário de nossos levitas.

Ele nasce batizado por uma predestinação celeste, no nome que elegemos para o abençoar e tutelar – o Imaculado Coração de Nossa Senhora.

Em momento oportuno, ele vem responder ao insistente e repetido apelo do Santo Padre em prol das vocações sacerdotais no Brasil. Depois da memorável Carta Apostólica de 23 de abril de 1947, ainda S. S. o formulava mais uma vez, em audiência especial concedida recentemente ao nosso Bispo Auxiliar, o Sr. Dom Antônio Maria Alves de Siqueira, que logo após recebia de S. Emcia. o Sr. Cardeal Pizzardo, Prefeito da Congregação dos Seminários e Universidades dos Estudos, a seguinte carta, que, com prazer, publicamos e cuja importância queremos encarecer:

 

Sagrada Congregação dos Seminários

e das Universidades dos Estudos

Roma, 8 de agosto de 1948.

 

Excelência Revma.

 

Na audiência que o Augusto Pontífice me concedeu esta manhã, tive oportunidade de referir a S. S. o zelo com que S. Emcia. o Sr. Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcellos Motta, Arcebispo de São Paulo, auxiliado por V. Excia. Revma., se empenha em desenvolver nessa importantíssima arquidiocese a Obra das Vocações Sacerdotais da qual o Brasil espera preciosos frutos espirituais, no terreno religioso e civil, que lhe serão proporcionados por numerosos sacerdotes, animados de verdadeiro espírito apostólico.

S. S. bem conhece a fé católica da população numerosa que tem a fortuna de viver nesse território riquíssimo e vastíssimo e deseja que a obra das Vocações seja colocada na base de todas as outras iniciativas apostólicas que o Episcopado e o Clero, as Ordens e as Congregações Religiosas, e a Ação Católica desenvolvem em nosso nobre País.

Se quereis que no futuro o Brasil seja um grande Estado Católico, luz da civilização cristã para muitos outros, deveis ouvir mais intensamente o pungente apelo do Divino Mestre: A messe é grande, os operários são poucos!

Com estas diretivas, inspiradas numa grande estima e afeto paternal, o Sumo Pontífice abençoa o Exmo. Sr. Cardeal Arcebispo de São Paulo e V. Excia.

Feliz de me desempenhar desta grata incumbência, saúdo cordialmente a V. Excia. Revma, pedindo-lhe apresentar ao Exmo. Sr. Cardeal Vasconcellos Motta a expressão de minha profunda homenagem.

(ass)  José, Cardeal Pizzardo.

 

Se os nossos esforços, constituindo com sacrifícios o Seminário Menor Metropolitano em São Roque, querem corresponder a essas reiteradas insistências do S. Padre, desejamos também lembrar a nosso clero e a todo o povo cristão, e em especial aos pais e mães de família, a sua contribuição na solução do mais urgente problema de nossa Pátria.

Ao considerar, realmente, o número diminuto de nossos padres, incapazes de atender totalmente às necessidades espirituais dos fiéis, e o dos nossos seminaristas, tão escassos que não podem assegurar nem sequer o mesmo número de sacerdotes dentro de alguns anos, evidencia-se, imediatamente, a gravidade do problema e a responsabilidade de todos.

Aos párocos, dirigimos nossa palavra de solícita advertência para que cuidem de despertar, descobrir, nutrir e vigiar depois as vocações sacerdotais na paróquia. O dever de cuidar das vocações é tão essencial como o de ensinar catecismo e o de administrar os sacramentos - trinômio que compendia as obrigações mestras da cura de almas, e tão necessariamente, que não será deveras pároco quem não lhe importa a Obra das Vocações Sacerdotais na jurisdição diocesana que lhe foi confiada.

Nem caberia o direito de nos procurar a pedir o auxílio de vigários cooperadores para os seus trabalhos, aos párocos que não tiverem sabido orientar para o Seminário e para a Ordenação Sacerdotal os meninos de sua paróquia, onde, se recrescem os serviços, não podem minguar as vocações.

Usem nossos zelosos sacerdotes dos melhores cuidados no enriquecimento dos nossos seminários com vocações eleitas. Que sua virtude exemplar e contagiante seja o mais aliciante estímulo para que os meninos e jovens desejem o Altar e o Santuário.

Que ao lado das providências concretas para um criterioso recrutamento, promovam os párocos, os capelães, as casas religiosas, uma grande cruzada de preces, rogando ao Senhor da seara o envio de operários numerosos e santos para o amanho de sua vinha; Santas Missas, pregações, Horas Santas, Terços, o Sábado do Sacerdote, e tudo quanto possa obter de Nosso Senhor a bênção dessa sementeira desejada e farta de vocações, ao mesmo tempo que desperte na consciência dos fiéis o sentido exato desse problema crucial.

Grave obrigação incumbe às famílias cristãs: um sopro satânico vem tentando aniquilar-lhes o espírito e as belas tradições. Nelas estiolar tudo quanto fosse puro, cristão, sobrenatural. Fugindo à ordem divina e à estabilidade sacramental, constituí-las sobre a base do interesse mesquinho ou do prazer ilícito. Possível que, descristianizadas, elas alcancem ser alfobre de vocações?  Repousaria nelas o Senhor a mão Divina que convida, se delas é forçado a desviar os olhares ofendidos?

Mercê de Deus, começa a organizar-se uma abençoada confederação de famílias cristãs que vai defendê-las com armas serenas, mas tenazes.

A garantir a eficácia dessa campanha, ao mesmo tempo que a possibilitar sua continuidade, os lares cristãos devem timbrar em ser terrenos férteis de virtudes, que se somam geração a geração, para resultarem numa preciosa herança de santidade que Deus transforme num coração sacerdotal.

Porque não começar onde começa a família – ao pé do altar, onde a Igreja abençoa o casamento? Próximos ao altar uma única vez na vida, olhem para o alto os jovens esposos: Oxalá se imprima tão fundo nas suas almas aquela visão radiosa do Altar que, espontaneamente, quando se tornarem ninhos seus corações, ofereçam aos benvindos pequeninos aquele ideal tão único e tão alcandorado ...

E na intimidade da família, não merece somente o nome de lar cristão aquele que continua o ambiente do templo que o constituiu e abençoou?

Tocante a confidência que lemos numa das conferências de um Congresso de Recrutamento Sacerdotal em França: Era um seminarista à cabeceira da irmã agonizante. Queria confortá-la. E lhe disse estas palavras lindas: “Minha irmãzinha, no tempo de minha Primeira Comunhão, você tinha o costume de vir todas as manhãs ao meu quarto, de volta da missa das seis. E você me acordava dizendo: ‘Eu te trago um beijo de Jesus! Que doçura para mim, naquele tempo de criança, ser despertado, não pelos gritos brutais de uma criada, mas pelo ósculo eucarístico de Nosso Senhor que você, minha irmã, me trazia da igreja vizinha com um perfume de incenso e numa revoada de pensamentos angélicos! Data daí a minha vocação.”

Com que doce tranqüilidade se deve ter extinguido essa vida, aureolada pela graça de ter sido tal instrumento do Senhor para o chamado divino...

As vocações para o sacerdócio devem ser despertadas e orientadas; devem ser mantidas, espiritual e materialmente. Se para o trabalho espiritual concorrem as orações dos fiéis, o zelo dos párocos e sobretudo a ação silenciosa, mas fecunda dos diretores e professores de nossos seminários, a responsabilidade financeira, cada vez mais pesada em nossos dias, cabe à Obra das Vocações Sacerdotais.

Além de promover, conservar e auxiliar as Vocações, divulgar o verdadeiro conhecimento da dignidade e necessidade do Sacerdócio Católico e unir todos os corações e uma comunhão de orações e exercícios piedosos, - a Obra das Vocações Sacerdotais deve prover, auxiliando ou substituindo os patrimônios dos seminários, à sustentação dos nossos educandários levíticos.

O Concílio Plenário Brasileiro (dec. 454) preceitua que, além da observância das taxas, coletas e tributações de que fala o Código (c. 1355 e 1356) para a sustentação e precisões temporais dos seminaristas cuidem os párocos de advertir os fiéis da obrigação que lhes incumbe de favorecer as vocações eclesiásticas com ofertas pecuniárias, doações e legados.

Dessarte, reformados os estatutos da Obra Diocesana das vocações Sacerdotais, tendo em vista sobretudo o Moto Próprio de S. S. o Papa Pio XII ( A A S. XXXIII, p. 479 (1941) e os Estatutos e Normas (A A S. XXXV, p. 369 sg (1943)  para a Obra Pontifícia das Vocações Sacerdotais, fazemos um apelo veemente aos nossos dedicados cooperadores e a todos os fiéis cristãos da Arquidiocese, no sentido de se reorganizarem e revitalizarem também os Centros da Obra Arquidiocesana, a fim de que, juntamente com as orações e sacrifícios, possamos contar igualmente com os meios financeiros indispensáveis para a manutenção dos nossos seminários e dos nossos levitas.

Temos o prazer de comunicar a todos a filiação de nossa Obra Diocesana à Obra Pontifícia, em data de 22 de agosto deste ano, festa do Imaculado Coração de Maria – segundo carta que há pouco recebemos do Exmo. Sr. Cardeal Pizzardo, Prefeito da Sagrada Congregação dos Seminários e das Universidades dos Estados.

Não faltará, nós o esperamos com confiança, a proteção do céu, o zelo dos párocos e o auxílio dos caríssimos diocesanos, que como filhos obedientes às diretivas do Pastor, compreendem a urgência do problema das vocações e se dispõem, na medida de suas possibilidades, a cooperar na sua feliz solução.

E, para todos os nossos esforçados párocos, nossos diretores e professores dos seminários, máxime do nosso Seminário Menor que breve inauguraremos, para todos os zeladores, zeladoras e associados da Obra das Vocações Sacerdotais, para todas as famílias cristãs e sobre todos os nossos seminaristas, de hoje e de amanhã, invocamos, de coração, as bênçãos do Menino Jesus.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti

 

CARLOS CARD. MOTTA,

Arcebispo Metropolitano de São Paulo

São Paulo, 25 de dezembro de 1948, na festa do Santo Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

FONTE: ANUÁRIO - SEMINÁRIO MENOR METROPOLITANO DO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA - SÃO ROQUE – 1o  ANO - 1949 - ARQUIVO DA CÚRIA DE SÃO PAULO

 

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